domingo, 8 de janeiro de 2012

Entranhas de uma lembrança

Era de tarde e sentia a noite a aproximar-se. Caminhei pelo frio até chegar a pequena tenda azul. Entrei e vi-te a um canto a tremer de frio. Aproximei-me de ti e senti a tua dor, como um abafo de frio divido entre nós. Não me olhas-te, não fizeste nenhum gesto, ficas-te apenas como uma estátua e disseste "Sai".

Aproximei-me da roda à volta da fogueira. Sentei-me e fiquei a olhar para as chamas a subir cada vez mais alto. Ouvia as pessoas a cantar um música conhecida "Sobem as chamas, sobem as chamas, mais alto...", mas limitei-me a olhar para o céu escuro a perguntar-me como estarias.
Subitamente vi-te a aproximares-te de mim. Eras um vulto naquela noite escura e sem lua.
Houve por momentos alguma loura no ar, pessoas se levantavam a dançavam a volta da fogueira, saltavam e cantavam músicas que deuses não se atreveriam a cantar. Naquela noite em que te perdi de vista, naquela noite em que o escuro não te impedia de olhares para mim, sentas-te a meu lado e deste-me a mão.

Se me relembrasses o caminho
pois sem ti não me sinto perdido.
Sei que vais comigo...

Parei de entoar o verso quando me calaste, pondo a tua mão na minha boca. Não sabia onde estávamos, apenas sentia a tua mão a agarrar a minha. Percorremos caminhos ao luar onde pessoas tem medo de ir, dissemos coisas que nunca nenhum amor recusaria a dizer, percorremos carreiros entre arbustos com espinhos, imaginá-mos lugares onde nunca ninguém sonhou ir, inventámos músicas de amor, cometemos loucuras que nunca nenhuma mãe perdoaria a um filho. 
Por fim, deitámos-nos um ao lado do outro e olhamos cada um nos olhos um do outro. Para mim, os teus olhos eram belos, podia passar o resto da noite a olhar para eles sem me cansar. Sentia que as estrelas nos observavam, sentia que aquele momento era, em treze anos, o que tinha valido mesmo a pena. 
Adormeci, contigo.


Na vida, custa olhar para trás e ver coisas más, mas talvez se olharmos bem, poderemos encontrar algo de bom, guardado no nosso coração.

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